Maria João Faustino: Por favor, parem de nos empoderar: queremos ser livres

23 July 2021



Retiros de yoga no Meco, maquilhagem, brinquedos sexuais. O que têm em comum? São veículos de empoderamento das mulheres – ou assim são publicitados. Aparentemente, temos razões para celebrar: virtualmente tudo nos pode empoderar. O mercado é promissor. 

O empoderamento é consumível, estético e, sobretudo, individualizado. Tornado mainstream, o conceito de empoderamento é a versão “genderizada" de empreendedorismo: é um projecto de bem-estar e autocuidado, quase de auto-ajuda – não um projecto de libertação.  

O empoderamento das mulheres nesta forma mercantilizada apela sobretudo ao consumo, à sexualidade e à beleza. Não o faz por acaso: a regulação da sexualidade das mulheres e o imperativo da beleza são pilares do patriarcado. O movimento feminista tem, por isso, um legado de crítica dos dispositivos de opressão das mulheres: da objectificação, da hipersexualização, da indústria da beleza e dos seus ditames. Agora, porém, é-nos dito que o empoderamento é sobretudo sexual: ver pornografia, comprar lingerie, ter sexo com múltiplos parceiros ao mesmo tempo, tudo é potencialmente empoderador e tudo tem selo feminista – ainda que nos mesmos padrões estéticos e na mesma matriz androcêntrica que levámos décadas a contestar. (Perversamente, tal contestação é, nos dias de hoje, rapidamente rotulada de moralista e redutora, como se denunciar pressões sociais sobre as mulheres fosse um ataque a escolhas e comportamentos individuais).  

A mesma cultura sexista que objectifica as mulheres é a que celebra a auto-objectificação como empoderamento. A sociedade de consumo que explora, promove e capitaliza as inseguranças das mulheres é a mesma que nos publicita o empoderamento a la carte: usar batom, colocar botox, fazer uma labioplastia. Fazer a depilação ou manter os pelos. Escolher é empoderador, dizem-nos – mesmo que as nossas escolhas coincidam e recaiam sobre o que nos é imposto.  

O empoderamento individualizado é uma armadilha que nos mantém atomizadas, ao mesmo tempo que camufla novas normatividades. O empoderamento tem roupagens de escolha e agência, mas é, afinal, mais um dever: as mulheres querem-se (sexualmente) empoderadas, desempoeiradas, sem tabus. Sexualidade, consumo e beleza: as mesmas grilhetas que nos aprisionam são as mesmas que nos vendem como ferramentas de empoderamento. É revelador que aos homens não se promova a ideia de empoderamento, sobretudo pela via sexual: sabe-se que, enquanto grupo, são detentores de poder. 

Distanciado do sentido original de empoderamento, inicialmente radicado num programa de desenvolvimento e mudança social efectiva, o conceito corrente de empoderamento é aparentemente despolitizado. É, contudo, profundamente político, enraizado num contexto neoliberal que estabelece a equivalência entre escolha individual, consumo e liberdade. A retórica do empoderamento é reflexo do individualismo que centra e aclama a autotransformação e relega a transformação social: afinal, é mais fácil, vendável e aprazível promover retiros no Meco do que exigir políticas públicas que combatam e corrijam a assimetria histórica entre homens e mulheres. O empoderamento é celebrado como benefício individual de estruturas colectivamente opressoras, pelo que qualquer semelhança com capitalismo não é coincidência. Assenta numa lógica neoliberal que celebra a escolha como valor supremo, como se nos bastasse ter mais escolhas dentro de um sistema de opressão. Como se o horizonte fosse capitalizar com o sexismo, lucrar com o sexismo, ter prazer no sexismo – e não erradicá-lo. Como se não pudéssemos aspirar a outras formas de prazer, de gozo, de poder efectivo – e de liberdade.  

Numa sociedade profundamente sexista, o empoderamento individual não chega: é um obstáculo à libertação das mulheres. Não há – obviamente – nada de errado em usar batom, colocar botox, fazer a depilação ou comprar lingerie: tudo isto pode, individualmente, ser fonte de prazer, conforto e auto-estima. O problema é que tudo isto nos seja vendido como empoderador e emancipatório, esvaziando o conceito de empoderamento do seu potencial de transformação colectiva, ao mesmo tempo que perpetua os mesmos padrões de beleza e sexualidade colectivamente opressores. Escolher entre formas de opressão não é liberdade; capitalizar com a opressão (a sua e das outras mulheres) não é liberdade. A liberdade é colectiva, e só um projecto colectivo nos tornará livres. 

Num mundo sexista, muitas poderemos ser empoderadas, mas sê-lo-emos sempre, também, à custa de outras. Num mundo que retira poder às mulheres, muitas poderemos ser empoderadas – nenhuma será livre. Basta de empoderamento: só a liberdade nos chega.

Maria João Faustino in Público, Junho 2021

Post a Comment

© Ecco Vediamo. Design by FCD.